por Danúbia Guimarães
Diante da constatação de que os meios de comunicação também estão inclusos na era dos mercados planetários, surge a preocupação com o público que vai receber esse novo tipo de informação. Sobre isso, Barber vai mais além e teme que o consumismo mundial gere “uma sociedade na qual o consumo se transforme na única atividade humana e, portanto, naquilo que define a essência do indivíduo” (2002:48). Habermas faz coro a esse pensamento e defende que os meios de comunicação têm parte de culpa nesse estado de consumismo constante, já que não cumprem mais seu papel de formar a opinião pública.
(…) os meios de comunicação e, principalmente, a imprensa, são os responsáveis pela perda da capacidade crítica do público e pelo conseqüente declínio da esfera pública, uma vez que perderam sua função crítica para atuarem apenas como transmissores de propagandas (HABERMAS, 1984:253)
Lasch também compactua com o pensamento de Habermas e afirma que “quanto a dizer que a revolução nas informações elevaria o nível da inteligência das pessoas, não é nenhum segredo o fato de que a sociedade cada vez sabe menos sobre assuntos de interesse público” (1995: 189).
Menos apocalíptico Nilson Lage defende que as pessoas não são tão fáceis de serem conduzidas, muito menos a imprensa é tem poder absoluto. De acordo com Ângela Cristina Salgueiro Marques, doutora em Comunicação Social pela UFMG, em artigo intitulado “Os meios de comunicação na esfera pública: novas perspectivas para as articulações entre diferentes arenas e atores”, alguns autores também compactuam com a ideia, como Garnhan, 1992; Dahlgren, 1995; Page, 1996; Gomes, 2007; e Maia, 2000. Eles “identificam os meios de comunicação como atores dúbios: ao mesmo tempo em que contribuem para o alargamento e a construção de espaços de discussão, estão submetidos às lógicas do mercado e das desigualdades de poder entre o público e os agentes mediáticos”. (MARQUES, 2008: 31)
(…) se os veículos de comunicação e o jornalismo em particular tivessem tal poder de direção das “massas” – se existissem tais “massas” passivas, inertes, indefesas diante do veneno das mensagens midiáticas, então poderíamos dispensar a História e negar aos eventos qualquer outra causalidade (LAGE, 2001:45)
Flávio Porcello, doutor em comunicação pela PUCRS, pondera em artigo intitulado “Mídia e Poder: o que esconde o brilho luminoso da TV?”, que a mídia é a nova praça pública onde os gregos se reuniam na antiguidade para discutir a sociedade, com ênfase na televisão por ela representar o meio com maior alcance e visibilidade (2006:82). Isso não significa, no entanto, que ela teria o poder de simplesmente invadir a mente das pessoas. O importante é que a informação tenha força e seja realmente de utilidade.
Nesse ponto, Lasch concorda com Porcello e defende que o público está mal informado não por causa do ensino de pouca qualidade (embora ruim), mas devido à falta de debate público. “Quando o debate se torna uma arte esquecida, a informação, mesmo que esteja rapidamente disponível, não impressiona” (1995:190).
O fato, no fim das contas, é que a vida sem a informação, mesmo que enviesada pelos interesses da cultura McWorld, é impossível. Se as relações humanas estão cada vez mais baseadas na rapidez e na mudança de cenários e contextos, sem falar na união de grandes mercados, há a necessidade de alguém para tornar tudo isso público, esse alguém, é a mídia, como explica Lage
(…) a sociedade depende muito do fluxo de informação, mais do que em qualquer outra época da História. Sem informação jornalística – e pouco importa se ela o agrada ou desagrada, se lhe motiva paixão ou repulsa – o homem contemporâneo não consegue orientar-se na vida civil, profissional e mesmo afetiva; os mercados regridem em dinamismo e agilidade; numa era de especialidades, especialistas e tribos, é pelo jornalismo que se consegue ter contato com o que pensam os outros. (2001: 49)
Mas se é fato que a notícia deva existir mesmo em território conturbado por tantos interesses, qual será o futuro dos meios de comunicação? Que formas eles passarão a ter? Pensando justamente em responder essas perguntas, a empresa italiana Casallegio produziu um vídeo intitulado “Prometeus: A revolução da Mídia”[1], que tenta revelar uma visão da mídia e da convergência da Internet em relação ao futuro. No filme, em 2011, até mesmo os anúncios publicitários passam a acontecer somente na Internet, enquanto um papel plástico substituirá o jornal impresso.
Em uma versão um pouco apocalíptica, o vídeo revela ainda que em 2015 os impressos e a TV desapareceriam, enquanto o rádio migraria exclusivamente para a Internet. Quanto à fusão das grandes corporações, o vídeo aposta na compra da Microsoft pelo Google, e na compra do Yahoo! pela Amazon, formando os primeiros “líderes mundiais de conteúdo universal”.
Apesar do vídeo não passar de ficção, muito do que foi sugerido pode ser encontrado nos meios de comunicação. A pasteurização da notícia e a ameaça do Google de comprar o Twitter[2] só revelam que a planetarização do conteúdo midiático é mais real do que se imagina.
Referências
BARBER, Benjamin R. In: MORAES, Denis de. Por uma Outra Comunicação: mídia, mundialização cultural e poder. Rio de Janeiro: Record, 2005. 41-56 pp.
CAMARGO, Raquel. Twitter pode estar nos planos de investimentos do Google. Acesso em 20 de junho de 2009. Disponível em http://www.twitterbrasil.org/2009/02/26/twitter-pode-estar-nos-planos-de-investimentos-do-google/
LAGE, Nilson. A bolha ideológica. Santa Catarina, 2001
HABERMAS, Jürgen. In: MARQUES, Ângela C. S. Os meios de comunicação na esfera pública: novas perspectivas para as articulações entre diferentes arenas e atores. São Paulo, 2008
PORCELLO, Flávio. A. C. Mídia e poder: o que esconde o brilho luminoso da
tela da TV. 2006: Rio Grande do Sul
LASCH, Christopher. A rebelião das elites e a traição da democracia. Ediouro: 1995. Rio de Janeiro
Videografia
_____________. Prometeus: A revolução da Mída. Acesso em 18 de junho de 2009. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=5SJup6CGiO4
Notas
[1] Acesso em 18 de junho de 2009. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=5SJup6CGiO4
[2] Twitter pode estar nos planos de investimento do Goolge. Acesso em 20 de junho de 2009. Disponível em http://www.twitterbrasil.org/2009/02/26/twitter-pode-estar-nos-planos-de-investimentos-do-google/